Alojamento Conjunto

Após a realização de todos os cuidados de sala de parto, a mãe e seu bebê serão encaminhados para o Alojamento Conjunto (AC) onde permanecerão lado a lado, o tempo todo, até a alta hospitalar. O AC é fundamental para a humanização da assistência ao binômio mãe-filho, e favorece a participação da família.

Mãe do bebê Amamentação

“Os hospitais e demais estabelecimentos de atenção à saúde de gestantes, públicos e particulares, são obrigados a manter alojamento conjunto, possibilitando ao neonato a permanência junto à mãe” (Estatuto da Criança e do Adolescente no Capítulo I, art. 10º, inciso V)

Condições do binômio mãe-filho para permanência em AC até a alta hospitalar

 

  • Ausência de contraindicações que impossibilitem o contato das mães com seus RNs;

  • Neonatos estáveis e com boa vitalidade, sucção/deglutição/respiração coordenadas e controle térmico (em geral, peso de nascimento > 2.000 g, > 35 semanas de IG ao nascer e APGAR > 7 no quinto minuto).

Vantagens do Alojamento Conjunto

  • Permite o estabelecimento precoce de vínculo afetivo entre a mãe e seu bebê, garantindo a pronta satisfação das necessidades físicas e emocionais deste. É sabido que no alojamento conjunto os RNs choram menos e dormem mais do que quando se encontram em unidades neonatais de cuidados intermediários. Além disso, há evidências de que o AC reduz risco de abuso/negligência infantil e de abandono da criança.

  • Favorece o aprendizado da mãe, pai e pessoas próximas à família, dos principais cuidados com o recém-nascido, (cuidados essenciais para a manutenção de sua saúde).

  • Há evidências, por meio de alguns indicadores ("descida" do leite", duração da amamentação, atitude materna)  de que o AC exerce efeito favorável na amamentação.

  • Garante a oportunidade para as mães aprenderem e treinarem os cuidados com os RNs, aumentando sua autoconfiança. Além das orientações recebidas de profissionais de saúde, o convívio com outras mães, permite a troca de experiências.

  • Favorece o acompanhamento presencial da mãe em relação aos cuidados e procedimentos realizados pelos profissionais de saúde, reduzindo sua ansiedade.

  • Diminui o risco de infecção hospitalar. 

Bebê recém-nascido com a mãe

A interação precoce continuada entre a mãe e o RN (desde o nascimento) é muito valiosa para a relação entre ambos. O bebê deve ter suas necessidades atendidas prontamente pela mãe, sem que se preocupe em deixá-lo dependente  ou “manhoso”. Proteção e carinho só contribuem para aumentar sua confiança e sentimento de segurança. O melhor momento para interagir com o bebê é quando ele se encontra no estado quieto-alerta. (RN quieto, com olhos bem abertos, atento). Nesse estado, os RNs a termo, podem ser capazes de:

  • Ir ao encontro da mama da mãe logo após o nascimento, se colocados no seu tórax.

  • Fazer contato visual e reconhecer a face da mãe após quatro horas de vida. O bebê visualiza com melhor foco a uma distância de aproximadamente 20 a 25 cm, que corresponde a distância entre os olhos do RN e a face materna durante a mamada.

  • Reconhecer e se interessar pelas cores vermelha, azul e amarela.

  • Distinguir alguns tipos de sons (preferencialmente sons agudos) especialmente a voz humana (particularmente a voz da mãe)

  • Reconhecer diferentes odores (com um ou dois dias de vida já reconhecem o cheiro da mãe).

Normas básicas do AC

 

  • O aleitamento materno sob livre demanda deverá ser sempre encorajado e orientado (*).

  • Nenhum outro alimento ou bebida deverá ser oferecido ao bebê, além do leite materno, a não ser em situações excepcionais com prescrição médica (**).

  • Bicos artificiais ou chupetas não devem ser dados às crianças amamentadas principalmente no período de estabelecimento da lactação. A associação entre uso de chupeta e menor duração da amamentação já está bem documentada (***).

  • Orientar as mães para que não amamentem outros RNs que não os seus próprios (amamentação cruzada) pelo risco de contaminação por patógenos que podem ser encontrados no leite materno, incluindo o HIV.

  • Os RNs devem ficar em decúbito dorsal (posição supina) em seus berços ao lado da cama da mãe. Na alta, recomendar às mães que mantenham essa posição em casa. Essa orientação visa a redução da síndrome da morte súbita do lactente (não há risco aumentado de bronco aspiração dos bebês quando colocados em decúbito dorsal).

(*) Indiscutivelmente, os primeiros dias após o nascimento são extremamente importantes para o sucesso da amamentação. É um período privilegiado para conversar sobre aspectos de uma boa técnica de amamentação e reforçar a prática da aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida do bebê. Deve ser explicado para a mãe, não só que não há necessidade de qualquer outro alimento (incluindo água e chás), mas também que há desvantagens significativas nessa atitude. Orientar sobre medidas de prevenção de problemas relacionados à amamentação, tais como: ingurgitamento mamário, traumas, fissuras mamilares, mastite. Ensinar à mãe a técnica correta de ordenha, armazenamento e utilização do leite materno armazenado. Explicar a importância da manutenção de hábitos saudáveis durante a lactação, tais como, aumento da ingesta hídrica, alimentação variada e saudável, restrição ao tabagismo, bebidas alcoólicas, drogas ilícitas ou mesmo medicamentos sem prescrição médica. 

 

(**) Reforçar que não deve ser oferecido água ou chás ao bebê, pois essa prática se associa a desmame precoce e aumento da morbimortalidade infantil.

 

(***) Evitar a todo custo o uso de mamadeiras, bicos ou chupetas, que interferem negativamente na amamentação ("confusão de bicos"). Durante a fase de estabelecimento do lactação nos primeiros quinze a trinta dias após o nascimento, o uso de chupeta está contraindicado, não apenas pelo efeito negativo no aleitamento materno, mas também porque está associado à maior incidência de monilíase oral, otite média e deformidades no palato.

 

Rotina Pediátrica no AC

Na visita médica diária, o atendimento ao RN (ver O exame do recém-nascido e Triagem neonatal) deverá ser feito na presença da mãe aproveitando a oportunidade para prestar esclarecimentos de dúvidas e orientar sobre os cuidados com o bebê. 

 

Recomenda-se, sempre que possível e desejável, que o binômio mãe-filho permaneça no alojamento conjunto por, pelo menos, 48 horas. Esse tempo mínimo é estimado como sendo necessário para:

  • Aprendizado e treinamento das mães;

  • Realização dos testes de triagem neonatal;

  • Aplicação das vacinas BCG e Hepatite B;  

  • Detecção de complicações maternas pós-parto

  • Diagnóstico de afecções neonatais precoces, tais como, icterícia, problemas respiratórios, cardiopatias congênitas, obstruções gastrintestinais, desidratação associadas à ingestão inadequada de leite, hipotermia, infecções e sepse precoce, entre outras, que podem se manifestar nos primeiros dias. 

Recém-nascido

Roteiro para a visita médica ao Recém-Nascido no AC
 

Na primeira visita, antes de se dirigir ao AC, verificar o prontuário da gestante e o prontuário do RN, se inteirando de todos os dados importantes da história perinatal.
 

Abordagem da mãe no AC

  • Se apresentar e cumprimentar a mãe da criança pelo nome e fazer um primeiro contato amigável (por ex. parabenizá-la pelo nascimento do  filho(a), procurando saber qual foi o nome escolhido para a criança... etc.)

  • Procurar saber se ela (a mãe) está passando bem e se já teve oportunidade de amamentar o RN ou realizar algum cuidado de rotina com o bebê.

  • Conferir data e hora do nascimento, peso, comprimento e PC ao nascer da criança;

O exame do RN
 

  • Checar a identificação do RN: pulseira colocada na mãe e no RN onde deve constar o nome da mãe, data e hora do nascimento e sexo da criança e registro de impressão plantar do RN e digital da mãe.

  • Realizar a anamnese (*) completando os dados que faltam na história materna e perinatal, exames laboratoriais, dados do parto e do recém-nascido, finalizando com o exame físico e o diagnóstico do RN (ver O exame do recém-nascido).

  • Após o exame físico, se possível, pedir a mãe para colocar RN para sugar o seio materno com a finalidade de observar e orientar a técnica correta do aleitamento.

(*) É muito importante checar se houve eliminação de urina e mecônio. 

  • A primeira urina é eliminada nas primeiras 48 h de vida em 99% dos RN, sendo que 23% o fazem já na sala de parto. O volume urinário nas primeiras 24 h de vida é de cerca de 15 ml. As causas mais comuns de incapacidade de urinar nas primeiras 24 h são: prepúcio imperfurado, estenose de uretra, valva de uretra posterior, bexiga neurogênica, ureterocele, tumores renais, rins multicísticos, hipovolemia, agenesia renal bilateral (Síndrome de Potter), necrose tubular (secundária a hipóxia), trombose de veia renal, síndrome nefrótica congênita e pielonefrite congênita;

  • A primeira eliminação de mecônio ocorre nas primeiras 24 h de vida em 90% dos RN. Causas mais comuns de atraso na eliminação são: obstrução intestinal, fibrose cística, doença de Hirshprung.

Alta hospitalar do RN
 

Sempre que possível, a alta hospitalar deverá ser conjunta, mãe e recém-nascido, obstétrica e pediátrica. 

  • Preencher a caderneta de saúde com os dados maternos, obstétricos e neonatais e orientar as mães quanto ao seu conteúdo e sua importância no seguimento de saúde da criança.

  • Orientar os cuidados de higiene, o curativo umbilical com álcool a 70%, adequação das roupas em relação ao clima.

  • Agendar a primeira consulta de puericultura para o 5º ao 7º dia, bem como o teste do pezinho e a triagem auditiva.

  • Reforçar a importância do acompanhamento de puericultura, destacando o aleitamento materno, o programa nacional de imunização, o monitoramento do crescimento e desenvolvimento, prevenção de acidentes, entre outras medidas de prevenção e promoção da saúde infantil.

Recém-nascido