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DENTIÇÃO E SAÚDE BUCAL

Dentição temporária ou decídua

Total: 20 dentes 

Completa: entre 30 e 33 meses de idade.

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Dentição Permanente

Total: 32 dentes 

Completa: entre 17 e 21 anos de idade.

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Higiene Bucal

O cuidado com a saúde oral é fundamental e deve começar desde cedo. Isso exige comprometimento familiar e visitas periódicas ao dentista. Este irá orientar à família ações educativas e preventivas a serem implementadas no dia-a-dia da criança. O médico pediatra também deve orientar hábitos diários de higiene oral.

- Bebês

Antes do aparecimento dos dentes, a limpeza da gengiva pode ser feita utilizando-se apenas uma gaze com água. Assim que os primeiros dentes aparecerem, a família deve começar a escovação, usando escovas apropriadas para a idade da criança. Deve ser utilizada uma escova especial para bebês, com uma cabeça pequena e cerdas super-macias. A escovação deve ser realizada da mesma maneira que a dos outros membros da família, isto é, no início da manhã e à noite, e após as refeições. À noite, a secreção de saliva diminui.  E como a saliva protege os dentes, este é o momento em que higiene oral é mais necessária. Sobre isso, é importante ressaltar que a mamada da madrugada deve ser suprimida assim que possível, pois geralmente a higiene oral não é realizada nessa hora.

O creme dental deve ser adequado para bebês e sempre com presença de flúor que é fundamental para prevenção de cárie dentária. Use apenas uma pequena quantidade de creme (correspondente a um grão cru de arroz - ver figura ao lado). Como a maior parte dos dentes de leite são espaçados, geralmente não há necessidade de passar fio dental entre eles.

- Pré-escolares e Escolares

As crianças em idade pré-escolar e escolar devem ser orientadas e encorajadas a realizar a higiene oral no início da manhã, antes de dormir e sempre após cada refeição.

A escovação deve ser realizada pelo adulto responsável, até os sete anos de idade, pois elas ainda não possuem destreza suficiente. Após essa idade, a criança já pode escovar os dentes sozinha, mas sempre com supervisão dos adultos. Somente aos 10 anos, as crianças podem realizar a escovação sozinhas. O creme dental infantil deve sempre conter flúor. A quantidade de creme dental na escova é inicialmente no tamanho de um grão cru de arroz. Após a criança aprender a cuspir, a quantidade de creme dental a ser colocado na escova pode aumentar para o tamanho de um grão de ervilha (ver figura ao lado).

Passar fio dental é muito importante, especialmente para aqueles com dentes muito juntos. Para usar o fio dental, é necessária uma maior coordenação motora, por isso, um adulto deve supervisionar as crianças. Você também deve instruir a criança a limpar a língua. Enxaguantes orais somente devem ser usados após os seis anos de idade, quando é menos provável que a criança engolirá o produto.

Sabe-se que a melhor maneira de educar uma criança é dando exemplo. Em se tratando da higiene bucal, o adulto deve escovar os próprios dentes enquanto a criança está por perto escovando os seus. Isso reforça a importância desse procedimento e é uma boa maneira de educá-la.

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Saúde do Sono
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SAÚDE DO SONO
EM PEDIATRIA

Introdução

O sono é uma necessidade biológica fundamental e desempenha papel essencial no crescimento, no desenvolvimento neuropsicomotor e na manutenção da saúde física e mental da criança. Longe de representar um simples estado de repouso e inatividade, o sono constitui um processo fisiológico intensamente ativo e organizado, durante o qual ocorrem importantes mecanismos relacionados ao desenvolvimento das principais funções cerebrais, regulação metabólica, reparo celular, além de aprimoramento de importantes mecanismos do sistema imunológico. Durante o sono, circuitos neurais são reorganizados, conexões sinápticas importantes para a aprendizagem são estabelecidas enquanto conexões pouco utilizadas são desfeitas. Além disso, durante o sono profundo ocorre maior atividade do sistema glinfático, responsável pela remoção de metabólitos potencialmente neurotóxicos acumulados durante a vigília, contribuindo para a manutenção da homeostase cerebral.


Na infância, período caracterizado por intenso crescimento do sistema nervoso central e importantes aprimoramentos funcionais, a qualidade e a duração adequadas do sono tornam-se muito relevantes. Alterações quantitativas ou qualitativas do sono podem comprometer diversos aspectos do desenvolvimento infantil, produzindo repercussões imediatas e de longo prazo. Entre os principais aspectos relacionados ao sono na criança, destacam-se:

  • Desenvolvimento cognitivo: Durante o sono ocorre consolidação da memória, integração de novas informações, reorganização das redes neurais e fortalecimento das funções executivas, incluindo atenção, planejamento, raciocínio e controle inibitório. Crianças com privação ou fragmentação do sono apresentam pior desempenho escolar, dificuldades de aprendizagem, redução da capacidade de concentração e menor rendimento em tarefas que exigem memória e resolução de problemas.

  • Comportamento: Crianças privadas de sono podem apresentar instabilidade emocional, hiperatividade, irritabilidade, impulsividade.

  • Saúde mental: Distúrbios do sono aumentam o risco de ansiedade, depressão, alterações do humor e dificuldades no controle emocional.

  • Metabolismo: Evidências crescentes demonstram que a privação de sono altera a regulação endócrina da fome e da saciedade. Essas alterações favorecem maior ingestão calórica, preferência por alimentos ricos em açúcar e gordura, resistência à insulina e maior risco de sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica ao longo da vida.

  • Crescimento: O sono favorece a secreção do hormônio do crescimento (GH). Embora múltiplos fatores participem da regulação do crescimento, a privação crônica do sono pode reduzir a secreção adequada de GH e comprometer esse processo.

  • Sistema imunológico: Durante o sono noturno ocorre produção de citocinas, proliferação de linfócitos e fortalecimento da resposta imunológica adaptativa. A restrição do sono associa-se a maior susceptibilidade a infecções respiratórias, resposta menos eficiente às vacinas e aumento de processos inflamatórios sistêmicos.

O conhecimento da fisiologia do sono, de sua maturação ao longo do desenvolvimento infantil e dos principais transtornos que acometem crianças e adolescentes é fundamental para que o pediatra possa promover hábitos saudáveis, reconhecer precocemente alterações clínicas e instituir intervenções baseadas em evidências, contribuindo para um desenvolvimento pleno e para melhor qualidade de vida da criança e de sua família.

Neurodesenvolvimento e maturação do sono

O recém-nascido possui cerca de um quarto do volume cerebral do adulto, alcançando aproximadamente 80% desse volume por volta dos três anos de idade. Durante esse período ocorre intensa neurogênese residual, migração neuronal, sinaptogênese, mielinização e refinamento progressivo das conexões neurais. Durante todo esse processo, o sono sofre modificações em suas características fisiológicas, duração e periodicidade.

 

Dois processos se destacam na fisiologia do sono: a pressão homeostática e o ritmo circadiano. A pressão homeostática do sono corresponde à necessidade fisiológica crescente de dormir que se acumula durante o período de vigília. Quanto maior o tempo acordado, maior é a pressão para iniciar e manter o sono; inversamente, essa pressão diminui progressivamente durante o sono, especialmente durante o sono profundo. O principal mediador desse processo parece ser a adenosina, substância que se acumula no tecido cerebral como resultado da atividade neuronal ao longo da vigília. O aumento de sua concentração promove sonolência, enquanto sua depuração durante o sono restaura o estado de alerta.

O ritmo circadiano se desenvolve durante a primeira infância. O recém-nascido praticamente não apresenta um ritmo circadiano organizado. Este começa a se consolidar entre o segundo e o quarto mês de vida e continua amadurecendo ao longo dos primeiros anos. Um marco importante é o início da secreção rítmica de melatonina pela glândula pineal. Nos primeiros meses de vida sua produção é discreta, tornando-se progressivamente mais evidente entre o segundo e o quarto mês, quando começa a surgir um padrão circadiano de maior secreção durante a noite. A melatonina favorece a sincronização do ritmo sono-vigília. Sua secreção é fortemente influenciada pela exposição luminosa. Sabe-se ainda que a luz azul emitida por telas eletrônicas, pode retardar ou suprimir sua liberação.

 

O sono participa ativamente do desenvolvimento cerebral, sendo atualmente reconhecido como um dos principais moduladores de importantes processos e funções neurológicas durante os primeiros anos de vida:

  • Plasticidade neural (neuroplasticidade)

  • Atenção

  • Memória

  • Aprendizagem

  • Desenvolvimento comportamental.

Quadro 1. Duração recomendada de sono por faixa etária.

duração do sono.png

Fonte: Quadro elaborado pelo autor 

Embora o desenvolvimento do sono siga um padrão relativamente previsível, existe importante variabilidade individual. Fatores genéticos influenciam a necessidade diária de sono e a suscetibilidade a determinados transtornos. Paralelamente, fatores ambientais exercem papel decisivo na maturação do sono e contribuem para a organização dos ritmos biológicos, especialmente durante a primeira infância:

  • Rotinas consistentes

  • Ambiente adequado para dormir

  • Horários regulares

  • Exposição à luz natural durante o dia

  • Limitação do uso de telas no período noturno

Arquitetura do Sono: Sono REM (Rapid Eye Movement) e o sono NREM (Non-Rapid Eye Movement)

 

Representam os dois estados fisiológicos fundamentais do sono que se alternam de forma cíclica ao longo da noite e apresentam características neurofisiológicas e funções distintas, porém complementares. A compreensão dessas diferenças é essencial para entender a fisiologia do sono normal e entender as alterações observadas em diversos transtornos do sono.

 

Sono NREM (não REM)

O sono NREM corresponde à maior parte do tempo total de sono, com proporção variável na infância e é dividido em três estágios de profundidade crescente:

  • N1: estágio de transição entre vigília e sono, superficial e de curta duração.

  • N2: sono leve, responsável pela maior parte do tempo total de sono. Está relacionado à consolidação da memória e ao bloqueio de estímulos externos.

  • N3: sono profundo.

 

Durante o sono NREM predominam fenômenos de recuperação física e metabólica:

  • redução da frequência cardíaca

  • diminuição da pressão arterial

  • redução da frequência respiratória

  • menor consumo cerebral de oxigênio

  • aumento do tônus muscular

  • secreção do hormônio do crescimento (GH), especialmente durante o estágio N3

  • fortalecimento da resposta imunológica

  • recuperação energética e reparo tecidual

  • consolidação da memória declarativa (fatos e conhecimentos)

  • reorganização das conexões sinápticas

  • restauração da homeostase cerebral

 

Sono REM

O sono REM corresponde a aproximadamente 20–25% do sono em adultos, mas representa cerca de 50% do sono do recém-nascido, refletindo sua importância para a maturação cerebral. Seu nome deriva da presença de movimentos rápidos dos olhos, embora seja marcado por diversas outras características fisiológicas:

  • intensa atividade cortical, semelhante à vigília;

  • sonhos mais vívidos e elaborados;

  • atonia muscular quase completa (a atonia muscular fisiológica tem papel protetor, impedindo que o indivíduo execute fisicamente os movimentos correspondentes aos sonhos);

  • variabilidade da frequência cardíaca e da frequência respiratória;

  • maior atividade autonômica;

  • aumento do fluxo sanguíneo cerebral e do consumo de glicose.

 

Durante o sono REM, o cérebro permanece metabolicamente muito ativo. Esse estágio está intimamente relacionado à:

  • maturação do sistema nervoso central;

  • plasticidade sináptica;

  • consolidação da memória procedimental (habilidades motoras e aprendizagem implícita);

  • integração emocional das experiências;

  • desenvolvimento das redes neurais, especialmente durante os primeiros anos de vida.

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Ilustração elaborada pelo autor

Características evolutivas da fisiologia do sono do nascimento à adolescência

No período neonatal precoce o sono é constituído por três estados comportamentais: sono ativo, sono quieto (ou sono tranquilo) e sono indeterminado (ou sono intermediário). Estes estados evoluem, nas primeiras semanas de vida, para a organização típica do sono em períodos REM e NREM, observada em crianças maiores e adultos. No recém-nascido, o sono ocupa cerca de 16 a 18 horas ao longo das 24 horas diárias, sem predominância entre dia e noite. Os ciclos são curtos (cerca de 50 a 60 minutos), iniciam-se frequentemente em sono REM e apresentam elevada proporção de sono ativo (aproximadamente metade do tempo total de sono corresponde ao sono REM), considerada importante para o intenso desenvolvimento cerebral dessa fase.

 

À medida que o sistema nervoso desenvolve, ocorre um aprimoramento dos mecanismos neurais responsáveis pelo controle do sono, cujas características vão se modificando:

  • Os ciclos vão se tornando progressivamente mais longos (atingindo aproximadamente 90 a 110 minutos no final da adolescência)

  • Aumenta a estabilidade do sono NREM

  • O início do período de sono passa a ocorrer no estágio NREM. 

Nos primeiros meses, observa-se redução progressiva da necessidade diária de sono, diminuição dos cochilos diurnos, maior concentração do sono durante o período noturno e redução gradual dos despertares fisiológicos relacionados à alimentação. Essas modificações refletem a consolidação progressiva do ritmo circadiano e a maturação contínua do sistema nervoso central. O conhecimento desses mecanismos permite ao pediatra interpretar adequadamente as mudanças esperadas em cada faixa etária, orientar hábitos saudáveis de sono e reconhecer precocemente situações em que a maturação normal pode estar comprometida. Na adolescência, embora a arquitetura do sono já seja semelhante à do adulto, ocorre um atraso fisiológico da fase circadiana, levando o adolescente a adormecer e despertar mais tarde. Esse fenômeno biológico frequentemente entra em conflito com os horários escolares, favorecendo privação crônica de sono. Enquanto o recém-nascido dorme grande parte das 24 horas, o adolescente necessita, em média, cerca de nove horas de sono por noite.

Higiene do sono


Higiene do sono, ou puericultura do sono, corresponde ao conjunto de medidas ambientais, comportamentais e educacionais destinadas a promover um sono fisiológico adequado às necessidades de cada faixa etária. Abrange a organização do ambiente de sono, a adoção de hábitos saudáveis, o estabelecimento de rotinas consistentes e outros cuidados que favorecem um sono seguro, regular, suficiente e restaurador em crianças e adolescentes. Sua aplicação constitui um dos principais pilares da promoção da saúde do sono, contribuindo tanto para a prevenção quanto para o tratamento dos distúrbios do sono na infância e adolescência.
 

Em Pediatria, constitui uma das principais estratégias de promoção da saúde, favorecendo o início, a manutenção e a qualidade do sono. A higiene do sono deve abordada rotineiramente durante as consultas de puericultura. A orientação sistemática de crianças, adolescentes e seus cuidadores favorece o adequado crescimento, o neurodesenvolvimento e o bem-estar físico e emocional.
 

Rotina: A organização de uma rotina regular é o principal componente da higiene do sono. Horários consistentes para dormir e acordar, inclusive nos finais de semana, favorecem a sincronização do ritmo circadiano e facilitam o início do sono. Nos lactentes e pré-escolares, a adoção de rituais tranquilos antes de dormir como banho, leitura de histórias ou músicas suaves, funciona como um sinalizador fisiológico para a transição entre vigília e sono.

Ambiente: O ambiente de dormir também exerce importante influência sobre a qualidade do sono. Recomenda-se que o quarto seja silencioso, escuro, confortável e com temperatura agradável. A cama deve ser utilizada prioritariamente para dormir, evitando-se que o quarto se torne um ambiente destinado a brincadeiras ou ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos. Nos primeiros meses de vida, além dessas recomendações, devem ser observadas as medidas de sono seguro, incluindo posicionar o lactente em decúbito dorsal, utilizar colchão firme e evitar objetos soltos no berço, reduzindo o risco de síndrome da morte súbita do lactente.
 

Telas: Nas últimas décadas, a exposição às telas tornou-se um dos principais fatores associados à deterioração da saúde do sono em crianças e adolescentes. A luz azul emitida por telefones celulares, tablets, computadores e televisores inibe a secreção de melatonina, retarda o início do sono e reduz sua qualidade. Além do efeito da luminosidade, o conteúdo interativo e emocionalmente estimulante aumenta o estado de alerta, dificultando o relaxamento necessário para adormecer. Por esse motivo, recomenda-se evitar o uso de dispositivos eletrônicos pelo menos uma hora antes de dormir e, idealmente, mantê-los fora do quarto durante a noite.
 

A promoção de hábitos saudáveis de sono representa, portanto, uma medida preventiva de amplo impacto sobre o desenvolvimento infantil. Assim como alimentação adequada, vacinação e atividade física, o sono também é um dos pilares fundamentais da saúde da criança. Cabe ao pediatra orientar as famílias, identificar fatores de risco e intervir precocemente diante de hábitos inadequados ou sinais sugestivos de distúrbios do sono. No quadro abaixo se encontram algumas orientações que podem ser dadas aos pais ou responsáveis e os respectivos objetivos na saúde do sono da criança/adolescente:

Quadro 2. Orientações relacionadas à higiene do sono

Higiene do sono - tabela.png

Fonte: Quadro elaborado pelo autor

Principais transtornos do sono na infância

 

Os distúrbios do sono constituem um problema frequente na população pediátrica. Estima-se que aproximadamente 25% a 40% das crianças apresentem algum problema relacionado ao sono em algum momento da infância, sendo as insônias comportamentais mais comuns nos primeiros anos de vida e os distúrbios respiratórios do sono, as parassonias e os distúrbios do ritmo circadiano predominantes em outras faixas etárias. Em crianças com doenças crônicas ou transtornos do neurodesenvolvimento, como TEA, TDAH e síndromes genéticas, essa prevalência pode ultrapassar 60% a 80%, reforçando a necessidade de investigação sistemática durante o acompanhamento clínico.

Os transtornos do sono compreendem um grupo variado de condições que interferem na quantidade, qualidade, horário ou continuidade do sono, repercutindo sobre o desenvolvimento, o comportamento, o desempenho escolar e a qualidade de vida da criança e de sua família. Segundo a classificação da American Academy of Sleep Medicine, os principais transtornos do sono em Pediatria incluem as insônias, os distúrbios respiratórios do sono, as parassonias, os distúrbios do movimento relacionados ao sono, os distúrbios do ritmo circadiano e os transtornos centrais de hipersonolência.

Insônia comportamental da infância

A insônia, de um modo geral pode ser definida como a dificuldade de iniciar o sono, despertares noturnos frequentes e/ou prolongados ou ainda despertar precoce. É o transtorno do sono mais frequente nos primeiros anos de vida, com prevalência estimada de cerca de 20% a 30%. A principal causa de insônia na infância é comportamental, devendo-se excluir problemas médicos como causas orgânicas primárias. Caracteriza-se pela dificuldade de iniciar ou manter o sono em decorrência de hábitos inadequados ou de associações comportamentais estabelecidas durante o adormecimento. Frequentemente está relacionada à necessidade da presença dos pais, mamadeira, amamentação ou outros estímulos para conseguir dormir, bem como à ausência de limites consistentes para o horário de dormir.

 

Distúrbios respiratórios do sono

Correspondem a um espectro de alterações caracterizadas por aumento da resistência das vias aéreas superiores ou por obstrução parcial ou completa durante o sono, levando à fragmentação do sono, hipóxia intermitente e alterações ventilatórias de intensidade variável.

  • Ronco primário: Caracteriza-se pela presença de ronco habitual sem episódios de apneia, hipopneia, hipoventilação ou alterações significativas da oxigenação e da arquitetura do sono. Embora tradicionalmente considerado benigno, pode estar associado a alterações comportamentais e cognitivas em algumas crianças.

  • Síndrome da resistência das vias aéreas superiores: Caracteriza-se pelo aumento da resistência ao fluxo aéreo nas vias respiratórias superiores durante o sono, provocando despertares frequentes e fragmentação do sono, porém sem preencher critérios para apneia obstrutiva do sono. A criança costuma apresentar sono não reparador, fadiga e sonolência diurna.

  • Apneia obstrutiva do sono (AOS): Caracteriza-se por episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em redução ou interrupção do fluxo respiratório, hipóxia intermitente, hipercapnia variável e fragmentação do sono. É o distúrbio respiratório do sono de maior relevância clínica na infância. Como principais fatores de risco estão incluídos: hipertrofia adenotonsilar, obesidade e algumas síndromes genéticas: síndrome de Down, síndrome de Prader-Willi, acondroplasia e outras craniofaciais aumentam significativamente o risco de obstrução das vias aéreas superiores devido a alterações anatômicas e neuromusculares.

Parassonias

 

São eventos físicos ou comportamentais indesejáveis que ocorrem durante o sono ou nas transições entre sono e vigília. Em geral, são benignos e refletem despertares incompletos ou ativação anormal de circuitos cerebrais durante o sono.

  • Despertar confusional: Episódios de despertar parcial durante o sono profundo, caracterizados por desorientação, lentidão, fala incoerente e dificuldade para despertar completamente. A criança geralmente não se recorda do episódio.

  • Terror noturno: Parassonia do sono NREM caracterizada por despertar abrupto acompanhado de choro intenso, gritos, taquicardia, sudorese e aparente intenso medo. A criança permanece inconsolável e, na maioria das vezes, apresenta amnésia do episódio.

  • Sonambulismo: Caracteriza-se pela realização de atividades motoras automáticas durante o sono NREM, como sentar-se, caminhar ou manipular objetos, mantendo reduzido nível de consciência e pouca resposta ao ambiente.

  • Pesadelos: Sonhos vívidos e desagradáveis que ocorrem durante o sono REM, provocando despertar completo, lembrança detalhada do conteúdo onírico e dificuldade para voltar a dormir.

  • Bruxismo do sono: Caracteriza-se pelo ranger ou apertamento involuntário dos dentes durante o sono, decorrente da atividade repetitiva dos músculos mastigatórios. Embora frequentemente benigno, pode ocasionar desgaste dentário, dor muscular e cefaleia.

Distúrbios do movimento relacionados ao sono

Compreendem alterações motoras repetitivas ou desconfortáveis que interferem no início ou na manutenção do sono.

  • Síndrome das pernas inquietas: Distúrbio neurológico caracterizado por necessidade irresistível de movimentar os membros inferiores, geralmente acompanhada por sensações desagradáveis, que pioram durante o repouso e melhoram com o movimento. Pode dificultar o início do sono. A deficiência de ferro, especialmente quando acompanhada de redução dos estoques corporais de ferritina, está fortemente associada à síndrome das pernas inquietas e aos movimentos periódicos dos membros, provavelmente em decorrência da participação do ferro no metabolismo dopaminérgico cerebral.

Distúrbios do ritmo circadiano

 

São transtornos decorrentes da dessincronização entre o relógio biológico interno e os horários sociais ou ambientais desejados para dormir e permanecer acordado.

  • Transtorno do atraso da fase do sono: Caracteriza-se por atraso persistente no horário fisiológico para iniciar e terminar o sono, resultando em dificuldade para adormecer no horário convencional e dificuldade para despertar pela manhã. Durante a puberdade ocorre atraso fisiológico da fase circadiana, relacionado a modificações na secreção de melatonina e na sensibilidade ao ciclo claro-escuro. Quando associado a horários escolares precoces, favorece privação crônica de sono. Outro aspecto a ser considerado é a exposição à luz, principalmente à luz azul emitida por dispositivos eletrônicos durante a noite. Essa exposição pode retardar o relógio biológico e inibir a secreção de melatonina, dificultando o início do sono.

Transtornos centrais de hipersonolência

 

Caracterizam-se por sonolência excessiva durante o dia, apesar de oportunidade adequada para dormir, comprometendo o desempenho escolar, social e emocional:

  • Privação crônica de sono: É a causa mais frequente de sonolência diurna em crianças e adolescentes, geralmente decorrente de horários inadequados para dormir, uso excessivo de telas ou demandas escolares e sociais.

  • Narcolepsia: Doença neurológica crônica caracterizada por sonolência diurna excessiva decorrente da incapacidade de manter adequadamente o estado de vigília. O cérebro perde a capacidade de regular adequadamente os ciclos de sono e vigília. A sua principal característica é a incapacidade de permanecer acordado por longos períodos, fazendo com que o sono invada o estado de alerta de forma abrupta. Esses pacientes apresentam o sono noturno fragmentado e podem apresentar outros sintomas, incluindo cataplexia, paralisia do sono e alucinações vívidas nos períodos de transição sono/vigília.

  • Hipersonia idiopática: Transtorno caracterizado por sonolência diurna excessiva persistente, sem outra causa identificável e sem as manifestações típicas da narcolepsia. Os pacientes apresentam necessidade aumentada de sono e grande dificuldade para despertar.

Quadro 3. Resumo dos principais distúrbios do sono em crianças e adolescentes

Fonte: Quadro elaborado pelo autor

Considerações finais

O sono deve ser compreendido como um determinante da saúde infantil e não apenas como um comportamento. Constitui um dos pilares fundamentais da saúde infantil, ao lado da alimentação adequada, da imunização, da atividade física e da promoção do desenvolvimento. Sua influência estende-se muito além do repouso, participando ativamente do crescimento, da maturação cerebral, da consolidação da memória, da regulação emocional, do metabolismo e do fortalecimento do sistema imunológico. Alterações na quantidade, qualidade ou organização do sono podem comprometer o desenvolvimento da criança e repercutir negativamente sobre sua saúde física, cognitiva, comportamental e emocional.

 

Nesse contexto, cabe ao pediatra incorporar a avaliação do sono como parte integrante da consulta de rotina, investigando sistematicamente hábitos de sono, fatores de risco e sinais sugestivos de transtornos. A orientação das famílias quanto à higiene do sono e o reconhecimento precoce das principais alterações permitem intervenções oportunas e baseadas em evidências, contribuindo para a prevenção de agravos e para a melhoria da qualidade de vida da criança e de sua família. Promover a saúde do sono é, portanto, promover crescimento saudável, desenvolvimento pleno e melhores perspectivas de saúde ao longo de toda a vida.

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